Sobre

Sempre me encantei diante das pinturas produzidas pelos homens pré-históricos. Principalmente aquelas, representando cenas do cotidiano. E minha fotografia vem desse encantamento. Nós, fotógrafos, somos os modernos criadores de imagens. Criamos memórias históricas de modo instantâneo, em frações de segundos. E quem sabe, no futuro, uma imagem do nosso tempo falará aos outros da nossa maneira de viver.

Comecei a fotografar nos anos 70, quando o Brasil vivia mergulhado numa ditadura e tudo estava lá para ser mudado. E tinha a convicção, já na época, de que a fotografia podia contribuir com essas mudanças. Ainda como amador, passei 2 meses rodando pelo Nordeste e fui descobrindo o quanto fotografar me ajudava nas conversas e a ser bem recebido por estranhos.

Me profissionalizei em 1977 como repórter fotográfico de uma grande editora no Rio. Como jornalista, entendi que produzir fotos é produzir informação. E não se produz informação sem ideologia: o tema escolhido e o ponto de vista são tão importantes quanto as escolhas técnicas como a lente usada ou a exposição da foto.
Depois de apenas alguns meses, me demiti optando pela liberdade criativa e pela propriedade das minhas fotografias. Me uni ao grupo de fotógrafos da Agência F4, de São Paulo, cobrindo os acontecimentos nacionais; especialmente aqueles censurados ou evitados pela grande imprensa brasileira.

O Brasil mudou. E, com ele, os problemas sociais e ambientais. Me pus a fotografar essas histórias, ficando mais tempo em cima de cada tema, deixando aos poucos a cobertura dos assuntos “quentes”. Cada ensaio, um mergulho num universo humano. Um deles, ainda no final do século 20, me levou para o fundo do mar, com pessoas dispostas a pagar para ver o grande tubarão-branco dentro de uma gaiola. Me encantei com o mundo submerso e virei mergulhador/fotógrafo submarino.

No começo da década de 10, incorporei o vídeo nas minhas coberturas e hoje fotografo e dirijo docs para televisão.

Por todos esses anos, uma questão fotográfica se impôs: fotografar sem interferir, ou ajeitar a cena de modo a torná-la mais visualmente atrativa? Na fotografia documental, a aparência simplista dessa questão mascara uma discussão profunda!

Uma foto retrata a realidade, mas não pode ser confundida com ela, já que é sempre uma interpretação de quem fotografou. Seja selecionando o quê e em que momento, seja compondo visualmente (ou artisticamente) o quadro. A câmera tem uma capacidade que nenhum outro instrumento tem, pois é capaz de imprimir num suporte (filme ou digital) uma lasca de tempo/espaço do que está acontecendo. E é aí que as coisas ficam complexas.
Estar atento para enquadrar e disparar nesses momentos pode tornar a fotografia uma simbiose equilibrada do real com a interpretação. Por outro lado, o quanto mais se “ajeita” a cena, mais esse equilíbrio vai pendendo para o lado da interpretação do fotógrafo, até chegar ao ponto de perder totalmente seu assento no real e se transformar numa ficção.

Quanto a mim, sou um fotógrafo perseguindo o equilíbrio!

error: © Ricardo Azoury